Felipe está ampliando as relações com os colegas fora da escola. Escuto com freqüência os pedidos para brincar na casa do Maximilian, Felix, Lenny, Nico e Julian; como também para convidá-los para brincar na própria casa. Aos pouquinhos, com meu “maravilhoso” alemão, comecei a conversar com as mães e combinar alguns encontros entre eles. Uma alegria em cada encontro, uma conquista e demonstração de menino crescido por permanecer na casa dos colegas sem a mami e papi por perto. E nem com o Thomas, assim como mesmo diz: “- O Thomas vai ficar com a mami!”
Por ser uma criança mais reservada, talvez até por conta da comunicação em alemão, Felipe agora está deslanchando, mostrando realmente tudo que sabe, soltando a língua (como contei
aqui) e fazendo seus pedidos. Conectado ao que está a sua volta, observando meninos e meninas outro dia pediu para convidar uma menina para brincar com ele. Nunca descartei a possibilidade, mas deixei as coisas acontecerem, mesmo porque sempre tive notícias de que era mais próximo de um ou outro menino na escola.
Pouco tempo atrás foi o aniversário dele, incentivei a convidar algumas meninas do grupo, mas estava mesmo interessado nos fiéis amigos do dia a dia. Então, pensei que aquela vontade havia sido apenas algo passageiro.
Ah, mas como intervir num encontro? Com qual menina? Não daria para ser algo imposto, só porque acho interessante que vivencie outros tipos de brincadeira e porque havia pedido uma vez para brincar com uma menina. Pensa que estou dizendo isso, pois acredito fielmente nessa diferenciação. Muito pelo contrário.
Por mais que de vez em quando escolha a cor rosa, que brinque de casinha e com bichos de pelúcia isso não garante um contato com o jeito de menina brincar, não possibilita que conheça os brinquedos de menina. Será que tem diferença? Sabemos que tem, que atualmente ainda predomina a presença de heranças culturais transmitidas pela sociedade. Que mostram a diferença de gênero, como se fosse necessário desde pequeno. Como se isso influenciasse o gênero da criança e o modo de agir.
Lembro fortemente essa influência na minha infância, no qual era grande o incentivo para brincar com brinquedos até então considerados somente de meninas, no qual ressaltavam os papéis exercidos pelas mulheres. Mas agora os tempos são outros. A sociedade mudou e os papéis que ambos os gêneros exercem perante a sociedade também.
Então, convenhamos que o brinquedo atualmente é o que menos importa. A criança (seja menino ou menina) deve experimentar, vivenciar situações nas quais possam brincar, exercer diferentes papéis, fazer de conta até, pouco a pouco, se identificarem com alguns brinquedos. Sejam eles até então “considerados” mais para meninos ou meninas.
Outro dia uma mãe, bastante simpática me convidou para um café na casa dela. Sabia que era nova no pedaço e que precisava de um empurrãozinho para ampliar as relações. Não queria pensar dessa forma, preferia considerar que era uma forma das filhas brincarem com meus filhos. Mas dito e feito, através do nosso encontro nossos filhos brincaram juntos.
No primeiro encontro na casa dela Felipe parecia meio deslocado. Passou uma boa parte do tempo observando como as meninas brincavam e quais brinquedos elas tinham. Mas bastou um convite para se aproximar e começar a brincar também. Esse dia foi interessante vê-lo brincando de cabeleireiro, de lego com apetrechos como bonecas e cavalinhos. Gostou tanto de brincar de cabeleireiro, que quando as meninas não quiseram mais, Felipe brincou sozinho tendo como companheiro um cavalo. Colocou pulseiras, penteava e passava perfume.
Esse encontro rendeu e deu vontade de brincar com elas novamente, tanto que já encontrou com Sofia e Lisa mais de uma vez.
Felipe teve a oportunidade de brincar num espaço até então organizado de maneira diferente, de conhecer um pouquinho o jeito de menina (que brinca vestida com vestido de princesa), que age de maneira mais tranqüila, falando baixinho, arrumando a tiara no cabelo, que convida-o para brincar de cabelereiro, de casinha, com carrinhos de boneca; mas também de lego, de barco, com brinquedos de areia, com carro, com trem, de pula pula na cama elástica e com água. Brinquedos diversos que não marcam o gênero, favoráveis ao divertimento e que incentivam ao desenvolvimento.
Curiosidade 1: Quando fomos na casa das meninas (Sofia e Lisa) Felipe fico admirado com o tamanho da cama elástica que tinha no jardim. Agora, me digam se comprariam isso para suas filhas? Talvez as mães e mesmo as filhas preferissem uma casinha de madeira com diferentes tipos de boneca. Mais uma vez, na minha opinião, isso só vem a reforçar que hoje em dia existe uma variedade muito maior de brinquedos e materiais favoráveis ao brincar, para se divertir. Seja menino ou menina! É nítida a mudança no pensamento e modo de agir com os filhos perante a sociedade.
Curiosidade 2 : Como mãe de dois meninos estou adorando ter meninas por perto. Recorrer as as minhas memórias da infância e favorecer outras relações durante o brincar.